Textos de Vanessa Carvalho

"A sua consciência tem um peso maior do que a opinião de qualquer pessoa."




Morte - Texto de Vanessa Carvalho

O que é a morte, senão a resposta da vida.

Ela é rodeada de mistérios, medos, dúvidas e pouco se fala á respeito, talvez para não atrair, talvez por não compreender, e quem sabe para fugir da dura realidade da sua existência.

A cultura ocidental possui a tendência de negar a morte, como se assim fosse possível pular a parte em que ela vai ao nosso encontro.

E vai, sem preconceito atingir a todos, de forma criativa, ou não, ela vai chegando.

A morte não tem piedade, nem clemência e sempre dá um jeito de fazer uma surpresa.

Não tem idade, sexo, cor, nível cultural que a afaste de nós.

Pode ser que demore um pouco, que chegue de mansinho e de repente, dá o seu terrível bote.

Ela pode estar na esquina te observando, te chamando e pode ser que mude de idéia e volte outro dia.

Ninguém sabe ao certo o que pretende a morte, e várias especulações são apresentadas em torno de seu nome.

Religiões, seitas, cursos são criados com o intuito de aliviar as perguntas que geram incertezas e fortes indagações a seu respeito.

Mas ao que se sabe, é que divergências e mistérios ainda cercam as perguntas, e o sentimento de impotência permeia a todos aqueles que vivem a vida conscientes, de que em algum momento, o destino final será confrontá-la.

Na verdade, grande parte do contingente humano não pensa na morte como real, e sim como um acontecimento distante que acontece somente com os outros.

O que não sabem, é que não pensar, não falar á respeito, não a faz ausente da nossa vida.

Morrer é mudar de plano, é ir para junto de Deus, ou não, é ficar adormecido até o dia do juízo final. 

Pessoas de diferentes profissões, somados aos teólogos e filósofos, tentam dar um significado que de alguma forma conforte os corações daqueles que buscam saciar sua curiosidade, e indo mais além, buscar uma modo de viver melhor, para assim ter uma morte mais digna.

O que se sabe com certeza, é que não adianta fazer as malas, e o que você vai levar daqui, é tudo aquilo que construiu internamente e isso é que vai fazer a diferença e te dignificar como pessoa.  

É preciso ser espiritual para compreender e lidar com ela.

Não é fácil perder pessoas que se ama, que compartilharam, construíram uma vida em comum, e de um momento para outro, tudo transforma em desespero e dor.

É como se o mundo acabasse ali, as cores ficam opacas, o brilho some dos olhos.

Anoitece, amanhece e aquele sentimento avassalador aperta o peito, as lágrimas quando conseguem sair molha o rosto envelhecido pela tristeza, salientando o desamparo causados pela ausência  

O retorno a rotina leva tempo, o luto fica marcado no olhar, no corpo, nas expressões.

O sorriso desaparece e a alegria de viver é substituída por uma melancolia sufocante.

O tempo vai passando e a dor vai dando lugar a saudade, e substituir o insubstituível,  é tentar mascarar o sentimento de impotência que a morte provoca.

A morte exige maturidade e sabedoria, para viver consciente que ela te aguarda em determinado canto, e que a qualquer momento ela leve da sua vida, alguém que você ama.

Ela é traiçoeira, esperta e sabe a hora de aproximar.

Ela vem em bandos e na maioria das vezes sozinha e como um furacão desesperado e contra tudo e todos avança sem piedade naqueles, ou naquele que foi seus eleitos.

Ela não pede licença, não pergunta se está pronta, simplesmente chega.

Sem pedir autorização e repleta de confiança vai aproximando e atinge uma única pessoa ou mais drasticamente, várias pessoas.

Arrasa  com multidões,  multila os corações e com toda a sua potência e força, vai eliminando um aqui, outro ali e deixando suas marcas e cicatrizes irreversíveis naqueles que direto ou indiretamente são atingidos.

A quem pense que ela é do mal.

Que escolhe suas vítimas aleatoriamente e tentam se vingar dela a qualquer custo.

Mas não, a morte é do bem, e é através dela que ocorre o renascimento.

È escatológico pensar na morte e ela dá a oportunidade de crescer e humanizar.

Ela é o fim dos sofrimentos do corpo.

O recomeço e a oportunidade de se desenvolver espiritualmente.

È possível tornar um ser mais iluminado, sem máscaras.

Retornar a origem com as experiências aqui vivenciadas, dá o privilégio de ser mais pleno, mais cônscio da nossa gênise espiritual.

É quando é possível diferenciar o material do imaterial, o ser do ter.

É poder ter a transparência no sentir, no pensar sem rótulos, sem censuras.

É ter a felicidade e liberdade de simplesmente ser.

A morte não existe, ela se mostra presente naqueles que não querem viver, naqueles que desistiram de lutar, naqueles que não possuem resiliência para fazer de um problema uma oportunidade, de desistir sem aos menos ter começado a batalha, de preferir a derrota do que ter que lutar pela vitória.

A morte não existe, ela anda junto com a vida e chega sim, na hora de cada um, levando junto, a vida.